
João Pereira
Nasceu em 03/06/42, em Jacupiranga. É artesão.
Minha mãe era neta de índio. Rodrigues vem dos Guarani. O avô dela era índio mesmo. Pereira é do meu pai, vem dos portugueses. Meu pai era lavorista. Ele tinha 10 alqueires de terra. Na época era fácil adquirir terra. Ele trocava terra por animais. Ele plantava mandioca, arroz, milho, feijão, cará, nhame, taiá. Nós criávamos porco, carneiro. Meu pai teve dez filhos, cinco homens e cinco mulheres. Trabalhamos na roça até certa idade. Quando ficamos mais velhos fomos saindo. Uma das minhas irmãs foi para São Paulo e me levou.
A minha escola era no Guarau. Minha primeira professora chamava Teresinha Groti, lembro dela até hoje. Andávamos de quatro a cinco quilômetros a pé todo dia para chegar na escola. Cheguei até a terceira série, sai da escola com 12 anos. Aí fui para São Paulo, fiquei uns oito anos. Mudei pra São Paulo e voltei para Registro umas três vezes.
Eu virei funcionário através do Feliciano Batista Canto. Eles estavam reconhecendo a área de Guarau. Trabalhei uns anos com ele lá. Eu era PO, operário para obras. Funcionário do Estado. Depois pedi transferência para São Paulo e me casei. Tive duas filhas lá. Depois voltei, trabalhei no escritório de Pariquera Açu, fiscalizava perímetros. Na época já tinha invasão de terras, vinha muito gente de fora, de São Paulo mesmo. Nunca teve uma fiscalização rígida para permitir que essas terras fossem patrimônio do Estado. Mas as pessoas plantavam. Eu fazia um relatório para dizer quando o sujeito entrou e o que ele fazia. Nunca soube o que eles faziam com aquele papel. Nunca vi uma retirada de família. Mas eu pensava que essas pessoas estavam certas, estavam lá plantando, criando os filhos, não tinham onde morar. Fazer o quê?
Aqui na região não tem mais terra do Estado. É tudo área invadida, o pessoal tem o direito de posse. Ou alguém fez a posse e vendeu para eles, ou eles mesmo se apossaram. Aí, em 1994, eu já estava cansado e me aposentei. Saiu a lei que poderia se aposentar pela proporcional. Daí eu pedi a contagem de tempo. Estava cansado desse trabalho, não tinha apoio.
Eu faço artesanato hoje, faço cestaria. Meu pai já fazia balaio, cesta para pesca e eu aprendi com ele. Depois de 80 para cá, eu comecei a entrar na coisa. Comecei a fazer coisas mais sofisticadas. Eu faço cesto de roupa, fruteira, chapéu. Eu faço da minha cabeça, só lembrando do passado.
Eu gostaria de achar um mercado que pudesse vender mais, é um sonho meu. Queria montar uma lojinha de artesanato.