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Eu me sinto registrense!

Publicado em 4 de maio de 2011
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Ronaldo José Ribeiro
Nasceu 24/08/1964 em Assis, São Paulo. Agrônomo e cientista social.

A minha cidade de nascimento é Assis, mas eu vivi em Maracaí até meus sete anos de idade, nós morávamos numa casa bem grande, com pés de jabuticaba, manga. Depois disso nós nos mudamos para Londrina, no Paraná. Nessa época, o meu pai trabalhava numa agência bancária e depois ele trabalhou numa empresa de adubos, que vendia produtos agrícolas, inclusive esse foi o motivo da nossa mudança. Londrina era uma cidade muito grande, muito grande. Eu me lembro do cheiro do café porque na entrada da cidade tinha uma fábrica de café solúvel e aquela fumaça e aquele cheiro de café invadia a cidade. Eu lembro também que o saquinho de leite foi uma novidade para mim porque em Maracaí conhecia aquele leite que os meus avôs e meus tios traziam, em garrafa de vidro, para a gente.

Quando nós morávamos em Londrina, a minha família já vinha passar as férias aqui, no Vale do Ribeira, em Ilha Comprida e eu conheci Registro e o Bom Jesus de Iguape já nessa época. Quando eu estava quase para entrar na faculdade eu e mais três amigos fizemos uma viagem, daquelas de estudante, para acampar aqui, por essa região, passamos em Ilha Comprida, passamos no Marujá, na Ilha do Cardoso, fomos até a Ilha do Mel, no Paraná. Foi uma viagem bacana, todo mundo de mochila nas costas e viajando. E naquela viagem, nós perdemos uma conexão de ônibus e tivemos que dormir aqui em Registro. Nessa praça onde era a antiga rodoviária de Registro, nós perguntamos e nos indicaram o Hotel Guanabara, ainda o prédio tem aqui mas não é mais hotel, era um calor infernal. Foi a primeira vez que eu dormi em Registro. Nunca imaginava que dez anos depois eu iria me mudar para a cidade e viver por aqui, como eu vivo, a mais de 20 anos!

Durante o ano a cidade de Registro tem muitas festas. As festas da colônia japonesa são muito importantes para a cidade. E a colônia tem uma influência econômica e cultural muito importante para a cidade. Em novembro, no dia de finados, eles cultivam muito a ancestralidade, então aqui tem a festa do Tooro Nagashi que são barquinhos de madeira com velas que cada família dedica a um membro da família, qualquer pessoa pode fazer isso e no dia de finados à noite, esses barquinhos, que são em torno de cinco mil, são colocados no rio e descem o Rio Ribeira e é muito comum as pessoas falarem que eles chegam até o oceano porque vão descendo a correnteza do rio e é muito bonito! É uma festa muito bonita, colorida!

Em Registro, eu tenho vários fatos marcantes. Eu e a Sandra nos casamos aqui, apesar de a nossa família ser de fora. Minha família, metade em Maracaí, metade em Londrina. A da Sandra, metade em Minas, metade em Goiás. Meus filhos nasceram aqui. Eu cheguei atrasado para o nascimento da minha filha! Eu estava numa reunião, sinal da nossa vida atribulada aqui! É a cidade que eu vivo a mais tempo, eu me sinto registrense!

Eu a amava e deveria ter dito isso a ela

Publicado em 23 de março de 2011
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Masakazu Nishidate
Nasceu em Asahikawa Hokkaido, Japão. Produtor rural e pescador aposentado.

Quando vim para o Brasil, eu sei que a situação era ruim para viver no Japão. Meus pais vieram contratados, obrigados a trabalhar em uma fazenda de café, trabalharam lá durante um ano e depois viemos para Iguape.peixe
Antes trabalharam em uma fazenda em Sete Barras e não gostaram, pois era no morro e as pessoas que estavam lá se queixavam. A família Nakamura nos chamou para ir para a colônia Jipovura, bairro onde se formou a primeira colônia de japoneses. Eles tiveram que trabalhar mais de um ano. Eu tinha 10 ou 11 anos.
Quando chegamos à colônia eles falavam mais português que japonês, logo eu entrei na escola da fazenda e a maioria era japonês na sala e só falam em japonês, a professora era brasileira e ficava brava. Como eu tinha estudado no Japão eu já sabia fazer conta.

Quando o meu irmão do meio morreu, eu fui trabalhar com o meu pai com a máquina de feitoria de arroz e tive que deixar a escola. Nessa época nós compramos um lote para plantar arroz. Em 1938 o meu irmão mais velho também morreu, ele teve problema de pulmão e para fazer tratamento ele foi pra Campos de Jordão e pra pagar o tratamento nos perdemos o nosso lote. Nós compramos também a fábrica de pinga Bandeirantes, naquele tempo moía a cana com cavalo, comprávamos garrafas vazias e os rótulos, engarrafávamos e colocávamos o rotulo. Compramos um trator pra ajudar na plantação de arroz, depois plantamos verdura que era vendida através da cooperativa. Por último em 1963 começamos a pescar manjuba e continuamos até 1975.

Eu comprei uma fabrica de pesca e passamos a depender da pesca, porque a plantação de arroz ficou abandonada, pois dava muito trabalho e ninguém queria cuidar dela. Eu passei a fornecer material para os pescadores e nós ficávamos com a produção, os peixes eram vendidos para o CEASA tanto o fresco como o salgado, antigamente tinha muito consumo de peixe, hoje em dia o peixe está muito caro.
Casei-me com 27 anos através do sistema japonês, tinha uma pessoa que fazia o intermédio nakado, e nós conhecíamos a noiva no dia do casamento, era muito difícil. Ela trabalhava na casa. Eu tive 7 filhos, 4 homens 3 mulheres. Os casamentos na colônia japonesa não deveriam ser como antigamente, as pessoas casavam sem se conhecer, por causa desse jeito de casar eu achava que não amava a minha esposa, mas agora que ela morreu eu sei que eu a amava e deveria ter dito isso a ela, para ela ter morrido mais feliz.

Meu sonho é ver o povo mais unido!

Publicado em 23 de março de 2011
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Maria Elizabeth Negrão Silva
Nasceu em Taguarituba em 16 de outubro de 1950, migrou para Iguape em março de 1967. Prefeita.

O meu pai trabalhava na antiga Empresa Sorocabana e era conferente de café. Como ele gostava de mudar de cidade, ele sempre pedia transferência de um lugar para o outro. A cidade onde mais ficamos foi Iguape.

Quando eu tinha 8 anos, minha mãe morreu na gravidez do nono filho. Eu e os meus irmãos tivemos que assumir a responsabilidade de cuidarmos uns dos outros e da casa. Dois anos depois da morte da minha mãe, meu pai se casou com uma prima e nós tivemos uma madrasta muito má. Quando o meu pai percebeu o que ela fazia conosco, se separou. Foi aí que nós viemos para a Região do Vale do Ribeira. Cheguei a Iguape com 16 anos. Nessa época, moramos em uma casa na beira do vale, com um senhor que nos recebeu muito bem.

O meu primeiro emprego foi de professora após me formar no Normal. Dei aula por alguns meses, depois fui trabalhar no comércio do meu atual marido, naquela época ainda não era meu namorado. Eu trabalhava sem compromisso dirigindo o carro e fazendo as entregas. Depois de alguns anos, nos casamos.

Depois de 30 anos no comércio, trabalhando com o meu marido, eu comecei a minha vida de política. Eu era conhecida pelas pessoas por causa do comércio, eu ia às comunidades fazer as entregas. Fui candidata à vereadora e tive dois mandatos, fui presidente da Câmara, depois vice-prefeita e, agora, prefeita.

Eu nunca participei de associações e organizações, eu me aproximei da política através do convite do meu cunhado, marido da minha irmã. Por volta dos 45 anos, fui vereadora pela primeira vez.

Eu fui a primeira prefeita mulher do município e, antes, fui a primeira mulher presidente de Câmara Municipal. O pior foi no palanque político: teve um candidato que mandou eu ir para casa varrer, ir atrás do fogão e do meu comércio. A população, inclusive os homens, me apoiaram diante disso.

Meu sonho é que existisse mais amor e ver o povo mais unido.

Sandra Kennedy Vianna

Publicado em 21 de março de 2011
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Meu pai trabalhava com café no sul de minas, e era mesmo natural que quisesse um filho homem para ajudar na lavoura. Aí veio eu, Sandra. Depois veio Simone, Cibele, depois Soraya, depois Cintia. 5 mulheres!

Sandra, a prefeita de Registro, nos conta um pouco da sua infância e um pouco da sua trajetória política

Meu maior sonho é terminar o que comecei

Publicado em 17 de março de 2011
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Sandra Kennedy Viana
Nasceu em 08 de fevereiro de 1964 em Divisa Nova (MG). Mudou-se para Registro em 1998. É prefeita.

Meu pai trabalhava com café no sul de Minas Gerais. Ele queria um menino, vieram cinco meninas, só depois veio o Romão. Nós ajudávamos a descobrir onde era o formigueiro na plantação. Estudei em escola rural. No primeiro ano minha mãe que era a professora. A história da mula sem cabeça… as histórias de Mazaroppi. Eu tenho prazer em pensar que isso fez parte da minha vida.

Meu avô era carreador, que é quem conduz o carro de boi. Para isso tem que ter a técnica. Com 26 anos meu pai já tinha uma fazenda. Ele que comprou.

Naquela época televisão era motivo de agregação. Meu pai foi o primeiro a ter televisão no sul de Minas. Ia todo mundo assistir televisão lá em casa.

Fiquei em Minas até os 8 anos. Depois fomos para o Paraná, acho que ficou muito difícil cuidar de todo mundo. E aquela região, São Pedro do Esvaí, era promissora. Fomos de fusca e uma babá. Fiquei nessa cidade até 14 anos. Estudei lá na escola pública. Tive aula de francês. Com a preocupação de uma educação melhor, mudamos para Maringá.

Lá em Maringá eu fiz o segundo grau. E nessa época conversando na Pastoral da Juventude tive contato com a teologia da libertação. Isso me levou a participar desde o Rotary Clube até o grupo de jovens.

Eu entendia que tinha uma repressão, que não podia falar tudo que pensava. Eu lembro que fiz um trabalho sobre a Redemocratização, e com isso passei a entender um pouco mais. Um professor de física que me chamou atenção para essas questões mais existenciais. No terceiro colegial passei a ler: Leonardo Boff, Frei Beto, D. Pedro Casadalglia. Eu não fui de movimento estudantil onde pude me formar. Foram as minhas leituras da teologia da libertação, uma tia a Ester Viana que foram me levando para esse lado.

Fiz o curso de Serviço Social em Londrina. Lá tinha uma série de professores que pensavam o Serviço Social com uma visão mais avançada. Na época da faculdade, de 81 a 85 eu peguei o que sobrou do Movimento Estudantil. Eu era presidente do Centro Acadêmico. Aí fui trabalhar com habitação popular. Lutei contra o aumento das passagens de ônibus.

Meu pai era muito bravo e não queria me ver com os comunistas.

Terminei a faculdade em 1985 e tive notícias de trabalho aqui no Vale, através de um amigo. Tinha uma vaga aqui para um concurso. Prestei e fui aprovada. Eu não tinha idéia de onde e como era aqui. Esse lugar parecia minha infância. Fiquei um ano em Eldorado. Depois vim para cá para ficar mais próximo da academia.

No início comecei a trabalhar com os posseiros de Eldorado, que são os quilombos de hoje. Fui conhecendo aquele povo e trabalhando com eles com idéias alternativas de produção. As mulheres começaram a produzir alimentos e vender para a merenda escolar. Um grupo de 14 mulheres começou esse trabalho comunitário. Foi a primeira vez que começou a aparecer dinheiro.

Veio forte a luta contra a construção de barragens e a questão da negritude. Esses movimentos fizeram com que essas pessoas fossem referências em organização. Algumas destas pessoas dão palestras pelo mundo sobre isso.

Meu namorado, Ronaldo, veio de Londrina e casamos aqui em Registro, temos dois filhos.

Por eu ser filiada ao Partido dos Trabalhadores, o grupo do PMDB na época fez muita pressão e eu acabei sendo exonerada do meu cargo. Consegui voltar por mais três meses e depois fui exonerada mesmo. Daí prestei um concurso público, acho que o último que teve nessa área da saúde e passei. Eu coordenava os postos rurais do Vale do Ribeira.

Meu marido em 1996 foi candidato a prefeito. O PT começou a ser mais respeitado aqui. E eu continuava fazendo educação de base, nunca pensei em ser candidata a nada. Na eleição seguinte não tinha candidato… eu fui então. Não tinha ninguém e nós achávamos que precisava ter alguém. Isso em 2000. O prefeito da época era considerado o melhor que a cidade já teve. Fiz 17% dos votos. Aí em 2002 fui candidata a deputada pelo Vale. Eu moro no Vale do Ribeira e não em Registro. Quem mora aqui fala muito isso. Eu tive 25 000 votos e com isso achava que tinha chances de me eleger deputada. Gostei da experiência. O Vale tem regiões ótimas. É uma diversidade.

Em 2004 fui convidada a participar mais uma vez para eleição a prefeita, perdi por três pontos. Eu continuei trabalhando na Secretaria de Estado. Em 2008 me candidatei outra vez e me elegi.

Um grande desafio é o do trivial, asfalto. Precisa de recursos externos. Isso já estamos resolvendo. Agora estamos trabalhando muito no desenvolvimento da região. Estamos trazendo escolas do sistema S (SESI e SENAI) e um pólo do Boticário. Estamos construindo 280 casas. Estamos também canalizando um córrego que deságua no Ribeira. Aqui na praça tem internet livre, estamos com um projeto mais arrojado de cidade digital.

Quero deixar registrado também meu carinho pela população japonesa.

Meu maior sonho é terminar o que comecei.

Maria Benedita

Publicado em 9 de março de 2011
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Uma mulher precisava de alguém para trabalhar na casa e minha mãe me mandou. Cheguei fui trabalhar direto na cozinha. Tinha 12 anos.

Maria Benedita nos conta um pedaço da sua trajetória e da trajetória da cidade também

Naquela época professor era muito rigoroso

Publicado em 20 de fevereiro de 2011
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Kazuo Ono
Nasceu em Iguape , em 06 de julho de 1928. Agricultor aposentado.

Minha família chegou em 1924 do Japão para cá. Desde moço meu pai era apaixonado pelo Brasil. Eu não sei muita coisa como foi a viagem dele para cá. Ele veio para Registro atrás de um loteamento. Ele ficou trabalhando quatro anos como colono.

Quando eu estava com cinco anos minha mãe faleceu. Lembro muito bem da sepultura da minha mãe. Sentei em cima do caixão na carroça e a vizinha me chamou a atenção. O cemitério era bem longe, região de brejo. Papai sozinho criou nós.

Em 1929 meu pai conseguiu comprar um terreno e plantou café, arroz e criou galinha. Com sete anos fui na escola primária e já ia no cafezal ajudar a colher café. Eu estudei na Escola Luis Guimarães de Almeida, tinha muito japonês estudando lá. Professor naquela época era muito rigoroso, ganhei muita reguada. Menino não podia conversar com menina.

Com treze anos eu lembro muito bem que na época da Guerra queriam expulsar a colônia de japoneses de Registro. Durante esse período faltava querosene, sal, açúcar. Havia distribuição desses produtos uma vez por mês. A gente tinha que entrar na fila para receber.

Papai criou galinha até morrer quando eu tinha 25 anos. Casei nesse ano e depois comecei a plantar chá. Em 1960 começou todo mundo plantar chá. Ai montei uma fábrica de esteira e chinelinho.

Café cereja

Publicado em 20 de fevereiro de 2011
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Rosa Calcinoto de Oliveira
Nasceu em São Manoel do Paraíso em 23 de Abril de 1929. Chegou em Registro em 1960. Aposentada.

Minha mãe e meu pai, os dois italianos… meu pai trouxe eu com uns 6 meses de idade para Piraju, onde criei e casei. Tive um irmão, mas morreu pequeno.

Minha infância era brincar em casa, ia pra roça e brincava debaixo dos pés de café. Brincava de apanhar algodão, boneca com milho, o milho já tinha aquele cabelo bonitinho, ai deitava a boneca lá.

Cresci na fazenda, casei, estudei um ano só na minha vida. Estudava na fazenda Santa Ana, era uma escola mista municipal, minha professora até hoje eu tenho saudades dela. Ela chamava Jandira Loba. Eu ia a pé até a escola.

Quando eu cresci um tanto mais, meu pai me chamou para ajudar… ajudar a catar café cereja. Tem muita gente que não sabe qual é o café cereja. Eu separava, peneirava, tinha que separar o seco, o verde, só podia sobrar aquele maduro. Eu fazia isso rápido.

Cresci, fiquei moça e casei. Meu marido era de Itapeva, ele veio trabalhar numa fábrica de ladrilho em Piraju e lá o conheci. Namorei ele por dois anos, casei na véspera de Natal.

Registro tinha muito mato. A rua era tudo terra, mas os primeiros prefeitos começaram a ladrilhar as ruas. Aqui tinha uma grande lavoura de chá. Mas foi passando a época, passando o tempo, e fecharam as fábricas.

Faz 18 anos que participo do CCI, e esses últimos anos fomos bem cuidados. Lá no CCI a gente faz bordado, pintura, jogos, boneca de lã e jogo dominó. Até hoje eu tenho a primeira boneca de lã que fiz lá no CCI.