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Caverna do Diabo

Publicado em 14 de fevereiro de 2011
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Jaime Alves
Nasceu em Eldorado, 06/06/1943. É aposentado/ guia turístico.

Meu pai era de Iguape e praticamente se criou aqui; e minha mãe, de Itapiuna, cidade vizinha daqui. Os meus pais se conheceram em Eldorado, por causa da Igreja Batista. Tiveram 4 filhos, 3 meninos e 1 menina, sendo eu o mais velho.

Na época a gente sofreu muito porque a minha mãe pegou uma tuberculose. Então tivemos que levar ela pra São Paulo. Meu pai só podia visitá-la 1 vez por ano, porque não tinha condições. Ele vendeu tudo pra ir visitá-la e deixar dinheiro pra ela. Quando meu pai viu que ela não teria cura, trouxe pra casa. Ela viveu mais um ano e faleceu. Ele ficou viúvo até morrer, com 90 anos.

A infância aqui em Eldorado era assim: a gente ia pela trilha para ir para escola, caminhando. Chegando na escola a gente via o pessoal com mais condições comendo e a gente passando fome. Depois voltava os 6 quilômetros, com chuva e tudo, com medo do mato, e às vezes quando voltava não tinha nem pra comer. Nesse caminho até o colégio tinha muitas coisas que a gente via.

Uma vez eu vi um vulto que parecia um boi. Quando cheguei perto já não era um boi, era um burro. Quando cheguei pertinho, esse negócio saiu da estrada e já não era um burro, era um porco. E não me deixava passar. Isso eu não esqueço, além de outros barulhos, outras coisas estranhas que aconteciam. Só não sei dizer o que era.

No mesmo sítio que eu morava de pequeno, casei, morei lá. É um sítio grande. Em 97, quando deu aquela enchente, inundou tudo até ali perto de casa. Eu estava voltando pra casa e fui nadando, os bichos me mordendo, e eu fui por entre o bananal para encontrar o meu pai. Cheguei lá e o meu pai estava tranqüilo, sentado. A água estava pertinho, mas não tinha chegado até a casa. Só que perdi todo o bananal que eu estava plantando.

Trabalhei cuidando do parque da Caverna do Diabo. Eu fui fazendo contato com os turistas que desciam dos ônibus e aos poucos o pessoal foi me incentivando a ser guia turístico das cavernas da região. Eu pedi autorização e me deixaram. Virei guia. Da Caverna do Diabo eu conheci tudo, percorri tudo, de ponta a ponta.

Uma vez um pessoal entrou lá e passou do limite permitido aos turistas. Foi passando o tempo e eles não voltavam. Achavam que eles estavam perdidos no mato, mas eu achava que eles estavam na caverna. Passados 3 dias, eu consegui uma equipe para ir buscá-los. Achamos as pessoas, estava com as pernas machucadas de nadar entre as pedras. Ajudamos as pessoas a saírem, e já tinha bombeiros para resgatá-los. Eu trabalhei 26 anos lá e essa foi a maior coisa que fiz.

Faroestes no cinema

Publicado em 14 de fevereiro de 2011
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Reinaldo de Melo
Nasceu em Eldorado, 30/08/1936. É aposentado.

Desde pequeno, eu morava aqui em Eldorado – antiga Xiririca – com meus pais e meus avós. Meu pai era comerciante. Como na época não havia bancos, o comerciante oferecia mercadorias para que o lavrador pudesse plantar e em troca ele estocava arroz. As tropas de burro com cestos nas costas iam buscar as mercadorias. A única estrada que tinha era de barro, daqui até a Jacupiranga, e que quando chovia ficava intransitável. Então o transporte então era feito pelo rio Ribeira pelas canoas ou pelos animais.

A minha casa ficava na barranca do rio e atrás tinha o armazém onde guardava as mercadorias. Dentro de casa havia 3 quartos. Em um deles morava as meninas e no outros os meninos; eram 13 irmãos. Nós brincávamos de coisas como peteca, rio e bola. A bola era feita com a bexiga do boi, mas não durava muito. E em casa a gente ajudava pai e mãe, os meninos na horta e as meninas aprendendo a costurar.

Eu, com 13 anos, saí de Eldorado pra fazer ginásio em Tietê. Por lá eu fiquei 7 anos, voltando pouco pra casa. Pra ir pra Tietê, a mãe fazia o enxoval – roupa de cama, cueca, camisa, sapato, sabonete, tudo isso – pra 4 meses. A gente saía de manhazinha, papai levava de carro até Sete Barras. Lá pegava a balsa e depois subia a Serra da Macaca e pousava em Tapetininga. Ia então pra Tatuí e de lá pra Tietê. Dormia na pensão e no outro dia já ia pra escola.

Mas a primeira vez que eu fui ao cinema foi aqui, quando eu tinha 11 anos. Chegou aqui a máquina e eu ficava vendo os faroestes, que eu gostava muito. A luz aqui era racionada porque vinha 220w de uma usina e era perigoso ficar ligado de noite, então o cinema costumava abrir só de sábado mesmo. Aqui era tudo diferente: não tinha rede de esgoto.

Aqui mesmo era um lugar de espécie de exílio. Quando havia uma dissidência política em São Paulo, os perseguidos vinham pra cá, longe das famílias. Mas como eram pessoas de cultura, influenciaram muito a política local. Havia muita cultura, além de ter trazido esgoto, usina e outras melhorias pra Eldorado. A cidade chegou até a ser invejada pelas cidades da região.

Na praça

Publicado em 14 de fevereiro de 2011
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Lúcia Vieira dos Santos
Nasceu em Eldorado, 19/03/1978. É auxiliar de educador/ monitora.

Meu pai trabalhava de pedreiro e viajava muito. Fazia essas casas como as que existem aqui na beira do rio. E foi numa dessas viagens que ele parou aqui em Eldorado. Mas os meus pais se separaram porque meu pai era alcoólatra. Na época, a minha mãe ficou com 8 filhos pequenos numa casa de 3 cômodos, bem simples e pequena. Mas eu tive uma infância bem feliz porque a gente tinha muitas dessas brincadeiras antigas de ir pra rio, pular amarelinha, rodar peão…

Eu morava aqui na praça central e os colégios em que eu estudei eram tudo aqui perto, a gente tinha tudo por perto. E logo aos 12 anos eu comecei a trabalhar de babá. Estudava de noite, então. Eu estudava pra ajudar a minha mãe, e como éramos em 8, eu trabalhava mesmo para me vestir, comprar roupa, sapato. Na hora de descanso, eu gostava de ficar na praça, rodar pela praça até cansar. Como hoje eu estou casada, deixo mais isso pras minhas filhas fazerem. Mas é algo que eu gosto de fazer. Eu gosto da praça, da igreja. Sou católica praticante.

Hoje eu trabalho na Casa Abrigo Família, cuido das crianças, brinco, coloca-as na cama. Essa casa funciona quando tem uma denúncia de problemas familiares, em que as crianças e os adolescentes estão ou sofrendo maus tratos, ou a família não segura mais elas em casa. Aí tem o acompanhamento psicológico e o social. Elas ficam um tempo até ir para o Fórum e o juiz decidir. Então, eu ainda trabalho com crianças. Além de trabalhar e viver pelas minhas filhas, que são minhas outras crianças.

Fábrica de banana passa

Publicado em 14 de fevereiro de 2011
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Vicente de Paulo Braga
Nasceu em Eldorado, 19/07/1945. É aposentado.

Eu ainda nasci em Xiririca, que virou Eldorado em 1947. Meus pais também são daqui. Meu pai perdeu os pais quando criança, foi pra Santos, ficou no meio na rua, mas conseguiu virar bombeiro e, mais tarde, quando desistiu da profissão, voltou pra Eldorado. Aliás, meus avós também eram de Xiririca. Uma parte veio na época do café e acabaram ficando por aqui.

A minha casa de infância ficava do lado da Igreja Matriz. Lá eu nasci e vivi até os 15 anos. Era uma casa de uma tia minha, onde vivia meus pais, eu e mais 7 irmãos. Tinha também um tio que morava lá. Era uma casa grande, dessas de sair correndo da porta da frente e chegar só 10 minutos na porta dos fundos. Mas essas casas antigas de Eldorado estão acabando.

Como na época não existia muito trabalho aqui em Eldorado, meu pai inventou de começar a fazer aquela banana seca, a banana passa. Já tinha uma fábrica na região, mas aqui na cidade meu pai iniciou. Eu tenho a primeira nota da venda dessas bananas. Eu colocava nas costas e saía pra vender aqui na região. Eu era molecão, e saía pelas cidades pra distribuir. Mas o meu pai, acho que por inocência, não sei, por excesso de confiança, assinou um contrato em que perdeu tudo o que tinha.

Eu ia pra escola a pé, fazendo 4 quilômetros todo dia com qualquer tempo. Mas a infância era bem divertida. Pegava lata de sardinha, enfiava num pedaço de pau e já era um tratorzinho. E depois na adolescência tinha o carnaval, os bailes, mas nada com drogas. Depois de certo horário já as mulheres tinham ido embora. As vezes as pessoas queriam encerar as casas, passava a cera e no baile as pessoas poliam, raspando o pé!

Depois da fábrica de banana com o meu pai, fui ser mecânico. Eu fui mecânico por um bom tempo aqui. Fiz isso até quando eu me aposentei. Na época a minha esposa foi fazer uma check up em Registro e não sei bem até hoje como, assim que ela entrou pra fazer o check up, entrou em coma! Ai abandonei a mecânica, hoje faço as minhas coisas, vou me virando. Com essas coisas a gente sai um pouco de órbita.

O comerciante

Publicado em 13 de fevereiro de 2011
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César Gomes da Silva
Nasceu em Sete Barras, 30/03/1929. Mudou-se com 7 anos para Eldorado. É comerciante.

Eu nasci em Sete Barras e só vim pra Eldorado com 7 anos, porque minha avó gostava muito de mim e me trouxe pra morar com ela.

Aqui eu tive um tio que me batizou e me ensinou a profissão de padeiro, e por muito tempo eu trabalhei em padaria com ele. Na época a cidade era diferente. A praça central não existia, era mata virgem. Me disseram que nessa mata virgem, em 1908, teve uma enchente tão grande que a água subiu 10 metros aqui!

Trabalhei nessa padaria com o meu tio até a época do exército, quando fui pra Santos servir. Lá ainda trabalhei em hotel e em padaria até que resolvi voltar pra Eldorado pra arranjar namorada e casar.

Na noite que cheguei, lembro bem que estava com um terno branco bem bonito. Era uma festa de São João. Ali tinha 6 moças querendo me paquerar e eu não sabia com quem ficava. Eu fiz um plano “Eu vou ficar com aquela que ficar a noite comigo”. Porque as mulheres aqui vão indo embora cedo, Aí foi saindo uma, outra, e ficou a minha esposa, Maria das Dores Gomes, com quem estou até hoje.

Casei e depois disso comecei a tocar a padaria do meu pai, mas mais tarde fui morar em Jacupiranga. Lá, peguei um bar falido, de um político que ninguém gostava. Comecei a tocar o bar e pensar no que fazer pra levantar o bar. Aí arrumei uma orquestra de violas pra chamar o povo. Mas o povo estava meio arisco.

Então mandei esticar o balcão por todo o corpo da casa. Aí vim pra Eldorado e arrumei 5 moças bonitas pra trabalhar no bar. Logo começou a chegar gente, o bar começou a funcionar. Foi lá que eu percebi que eu era um bom comerciante, que eu tinha jeito pra isso. Eu sempre fui comerciante.

Vale do Ribeira

Publicado em 11 de fevereiro de 2011
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Augusto Amadeu Torres
Nasceu na Lapa em São Paulo, em três de julho de 1939. Mudou-se para Sete Barras em 1986. É aposentado e poeta.

Era sabido, na época, que o Vale do Ribeira era a região mais pobre do Brasil. E que a as políticas públicas para o Vale eram mínimas, praticamente inexistentes. O agricultor, o pequeno agricultor vivia num abandono, como vive até hoje, mas melhorou um pouquinho.

Cantorias em latim

Publicado em 11 de fevereiro de 2011
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Marcelo Plácido de Oliveira Marques

Marcelo Plácido de Oliveira Marques
Nasceu em Sete Barras, em 17/10/1984. É formado em teatro e é professor de artes.

Em Sete Barras existe uma comunidade rural que canta em latim. A tradição se manteve e eles ainda cantam em latim. Cantam a ladainha, é como se fosse um terço.

Emancipação de Sete Barras

Publicado em 10 de fevereiro de 2011
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Higino Apolonio da Silva

Higino Apolonio da Silva
Nasceu em 12/02/1922 no Distrito de Sete Barras. Foi um dos líderes do movimento de emancipação da cidade.

Conseguimos o plebiscito de emancipação da cidade em 1958. Tivemos 425 votos a favor, contra 33 votos da oposição. Éramos um grupo de trinta e cinco pessoas. Resolvemos fazer esse movimento para melhorar as condições de Sete Barras. Melhorou muito depois da emancipação a cidade.

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Publicado em 5 de fevereiro de 2011
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