Meu pai era de Iguape e praticamente se criou aqui; e minha mãe, de Itapiuna, cidade vizinha daqui. Os meus pais se conheceram em Eldorado, por causa da Igreja Batista. Tiveram 4 filhos, 3 meninos e 1 menina, sendo eu o mais velho.
Na época a gente sofreu muito porque a minha mãe pegou uma tuberculose. Então tivemos que levar ela pra São Paulo. Meu pai só podia visitá-la 1 vez por ano, porque não tinha condições. Ele vendeu tudo pra ir visitá-la e deixar dinheiro pra ela. Quando meu pai viu que ela não teria cura, trouxe pra casa. Ela viveu mais um ano e faleceu. Ele ficou viúvo até morrer, com 90 anos.
A infância aqui em Eldorado era assim: a gente ia pela trilha para ir para escola, caminhando. Chegando na escola a gente via o pessoal com mais condições comendo e a gente passando fome. Depois voltava os 6 quilômetros, com chuva e tudo, com medo do mato, e às vezes quando voltava não tinha nem pra comer. Nesse caminho até o colégio tinha muitas coisas que a gente via.
Uma vez eu vi um vulto que parecia um boi. Quando cheguei perto já não era um boi, era um burro. Quando cheguei pertinho, esse negócio saiu da estrada e já não era um burro, era um porco. E não me deixava passar. Isso eu não esqueço, além de outros barulhos, outras coisas estranhas que aconteciam. Só não sei dizer o que era.
No mesmo sítio que eu morava de pequeno, casei, morei lá. É um sítio grande. Em 97, quando deu aquela enchente, inundou tudo até ali perto de casa. Eu estava voltando pra casa e fui nadando, os bichos me mordendo, e eu fui por entre o bananal para encontrar o meu pai. Cheguei lá e o meu pai estava tranqüilo, sentado. A água estava pertinho, mas não tinha chegado até a casa. Só que perdi todo o bananal que eu estava plantando.
Trabalhei cuidando do parque da Caverna do Diabo. Eu fui fazendo contato com os turistas que desciam dos ônibus e aos poucos o pessoal foi me incentivando a ser guia turístico das cavernas da região. Eu pedi autorização e me deixaram. Virei guia. Da Caverna do Diabo eu conheci tudo, percorri tudo, de ponta a ponta.
Uma vez um pessoal entrou lá e passou do limite permitido aos turistas. Foi passando o tempo e eles não voltavam. Achavam que eles estavam perdidos no mato, mas eu achava que eles estavam na caverna. Passados 3 dias, eu consegui uma equipe para ir buscá-los. Achamos as pessoas, estava com as pernas machucadas de nadar entre as pedras. Ajudamos as pessoas a saírem, e já tinha bombeiros para resgatá-los. Eu trabalhei 26 anos lá e essa foi a maior coisa que fiz.