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Eu a amava e deveria ter dito isso a ela

Publicado em 23 de março de 2011
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Masakazu Nishidate
Nasceu em Asahikawa Hokkaido, Japão. Produtor rural e pescador aposentado.

Quando vim para o Brasil, eu sei que a situação era ruim para viver no Japão. Meus pais vieram contratados, obrigados a trabalhar em uma fazenda de café, trabalharam lá durante um ano e depois viemos para Iguape.peixe
Antes trabalharam em uma fazenda em Sete Barras e não gostaram, pois era no morro e as pessoas que estavam lá se queixavam. A família Nakamura nos chamou para ir para a colônia Jipovura, bairro onde se formou a primeira colônia de japoneses. Eles tiveram que trabalhar mais de um ano. Eu tinha 10 ou 11 anos.
Quando chegamos à colônia eles falavam mais português que japonês, logo eu entrei na escola da fazenda e a maioria era japonês na sala e só falam em japonês, a professora era brasileira e ficava brava. Como eu tinha estudado no Japão eu já sabia fazer conta.

Quando o meu irmão do meio morreu, eu fui trabalhar com o meu pai com a máquina de feitoria de arroz e tive que deixar a escola. Nessa época nós compramos um lote para plantar arroz. Em 1938 o meu irmão mais velho também morreu, ele teve problema de pulmão e para fazer tratamento ele foi pra Campos de Jordão e pra pagar o tratamento nos perdemos o nosso lote. Nós compramos também a fábrica de pinga Bandeirantes, naquele tempo moía a cana com cavalo, comprávamos garrafas vazias e os rótulos, engarrafávamos e colocávamos o rotulo. Compramos um trator pra ajudar na plantação de arroz, depois plantamos verdura que era vendida através da cooperativa. Por último em 1963 começamos a pescar manjuba e continuamos até 1975.

Eu comprei uma fabrica de pesca e passamos a depender da pesca, porque a plantação de arroz ficou abandonada, pois dava muito trabalho e ninguém queria cuidar dela. Eu passei a fornecer material para os pescadores e nós ficávamos com a produção, os peixes eram vendidos para o CEASA tanto o fresco como o salgado, antigamente tinha muito consumo de peixe, hoje em dia o peixe está muito caro.
Casei-me com 27 anos através do sistema japonês, tinha uma pessoa que fazia o intermédio nakado, e nós conhecíamos a noiva no dia do casamento, era muito difícil. Ela trabalhava na casa. Eu tive 7 filhos, 4 homens 3 mulheres. Os casamentos na colônia japonesa não deveriam ser como antigamente, as pessoas casavam sem se conhecer, por causa desse jeito de casar eu achava que não amava a minha esposa, mas agora que ela morreu eu sei que eu a amava e deveria ter dito isso a ela, para ela ter morrido mais feliz.

Árvore de dinheiro no Brasil: o café!

Publicado em 17 de março de 2011
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Rubens Takeshi Shimizu
Nasceu em Registro em 05/11/1943. É agricultor.

Meus pais vieram do Japão. Meu pai veio com seis anos de idade e minha mãe com três. Meu avô veio direto pra Registro. Na época, Registro ainda precisava ser desbravado. Eles vieram com uma área comprada, mas sem saber onde ficava essa área. Meu avô veio em 1927, mais ou menos, e a colonização em Registro tinha começado em 1913. Eles ficaram no bairro mais distante do município de Registro.

Tinha uma companhia de colonização chamada KKKK, que havia feito o mapeamento do local que havia sido acertado com o governo brasileiro. Meu avô comprou dez alqueires ainda no Japão e, como a terra era dele, ele sempre disse que aqui viveria e seria enterrado, e assim aconteceu.

No Japão a vida era muito difícil, não havia alimentos…Sem contar a propaganda do Brasil que chegava ao Japão: haveria até árvores que davam dinheiro, que era o café.

Na época havia muitas dificuldades, a mata virgem, doenças como malária… Eles montaram uma casinha bem improvisada, bem rudimentar mesmo. Eu não tive muito contato com essa história, mas meu avô chegou a perder a mulher e buscar uma nova esposa lá no Japão.

Na época em que eu nasci não havia hospital, somente uma parteira chamada senhora Sumie e andava pela cidade fazendo os partos. Eu nasci no sítio.

Na primeira escola onde estudei, em Registro, a gente sempre levava “reguada” da diretora por chegar atrasado. Mas no dia seguinte chegava no horário! Andava quatro quilômetros pra chegar lá. Os professores não faltavam, era uma escola bem estruturada.

Voltei pra Registro, fiz o ginasial, mas naquela época meu pai estava precisando de ajuda na fábrica de chá, então fui ajudá-lo. Depois fiquei parado dois anos, ajudando meu pai a montar um sítio em Pariqueraçu.

Meu pai então me mandou pra fazer um estágio em agricultura nos Estados Unidos durante um ano, mas eu preferi fazer um curso agrícola aqui. Ele me mandou então de avião até Belo Horizonte e de lá para Viçosa. Demorava quatro horas! Não tinha mais ônibus, tive que ir de trem. Fiz dois meses de cursinho pra fazer vestibular. Achei que estava perdido, tinha muitos alunos que tinham acabado de sair da escola, e eu estava há dois anos parado. Na hora do resultado, entrei em 39º lugar, de 40 vagas. Era um curso técnico. Fiz o vestibular e entrei no superior e fiquei mais três anos lá, no total foram sete anos.

O chá era o seguinte: meu avô havia fundado a Sociedade Chatopi, na mesma época em que começou a funcionar em Registro a Cooperativa de Cotia, então a Chatopi passou pra Cotia. A Cooperativa concentrou em algumas fábricas, e uma delas era na casa do meu avô, então era pra onde levavam a produção da Chatopi. Eu trabalhei mais na fábrica do que na produção.
O processo de fabricação do chá é assim: o chá é colhido, o broto tem que ser bom, o chá é pré-murchado, moído e depois fermentado. E o ponto de fermentação tem que estar certinho, se não não fica bom.
A Cooperativa então montou uma fábrica central.

As dificuldades na produção de chá aqui na região vêm da década de 70, na época das leis trabalhistas. O pessoal que trabalhava de chá não ganhava salário, era por produção. Isso pegou muitos produtores despreparados, não conseguiam nem registrar nem pagar os funcionários.

Quando eu voltei da faculdade trabalhei dois anos com educação, e depois mais quatro ou cinco anos na Secretaria de Planejamento, no projeto Centro Estadual de Desenvolvimento agrícola do Vale do Ribeira. Era um recurso japonês que vinha para fazer aqui uma área toda cultivável. Mas mandaram um equipamento muito pesado, e até refazer o projeto, corrigir e mandar pro Ministério, mandar para o Japão, sem informática nessa época…aí quando voltava pro Brasil o Ministro ou o Secretário já era outro. Aí complicava muito.

Depois fui trabalhar novamente no sitio, ainda produzindo chá. Entrou novamente em decadência o chá, então plantei mexerica, plantas ornamentais…minha missão era ajudar meus irmãos e alguns sobrinhos, com o resultado da propriedade, depois do falecimento do meu pai. Minha vontade era vendê-lo depois da formatura do meu último sobrinho, mas meus filhos não deixaram. Eles então percorreram e descobriram que ainda havia muito mercado para plantas ornamentais.

Nós trabalhamos na Associação para trazer os jovens e manter as tradições japonesas, não precisa nem ser descendente de japoneses, é só querer. Tem cursos de origami, taiko (que é o bumbo japonês).

No Sindicato Rural temos capacitação profissional e eventos oferecidos para o povo rural.
Estamos tentando ensinar para o meu neto as canções japonesas, como segurar o hashi… pra criançada em geral na comunidade a gente ta tentando fazer.

Meus antepassados, meus avós, eles tinham o costume de fazer a cerimônia do chá. Eu não sabia exatamente para quê, mas a gente vinha voluntariamente fazer, pendurar as lanternas na rua. Hoje em dia não tem mais, chama-se Expo Vale. Nós temos que preservar essas coisas boas que acontecem no município. Agora temos também a criação do nosso Museu, que é tombado pelo Conselho Estadual e ano passado pelo IPHAN, na esfera federal. Nós conseguimos tombar ainda mais nove conjuntos aqui da região. Nós vamos tentar restaurar tudo, trabalhar, pra tentar tornar uma atração turística.
Esse é meu sonho: transformar Registro, aproveitando seus títulos de Capital de Vale do Ribeira, marco da imigração japonesa, terra do chá, em atração turística.

O meu sonho mesmo era formar todos os meus irmãos e meus sobrinhos, agora que já consegui quero ajudar mais a comunidade.

Naquela época professor era muito rigoroso

Publicado em 20 de fevereiro de 2011
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Kazuo Ono
Nasceu em Iguape , em 06 de julho de 1928. Agricultor aposentado.

Minha família chegou em 1924 do Japão para cá. Desde moço meu pai era apaixonado pelo Brasil. Eu não sei muita coisa como foi a viagem dele para cá. Ele veio para Registro atrás de um loteamento. Ele ficou trabalhando quatro anos como colono.

Quando eu estava com cinco anos minha mãe faleceu. Lembro muito bem da sepultura da minha mãe. Sentei em cima do caixão na carroça e a vizinha me chamou a atenção. O cemitério era bem longe, região de brejo. Papai sozinho criou nós.

Em 1929 meu pai conseguiu comprar um terreno e plantou café, arroz e criou galinha. Com sete anos fui na escola primária e já ia no cafezal ajudar a colher café. Eu estudei na Escola Luis Guimarães de Almeida, tinha muito japonês estudando lá. Professor naquela época era muito rigoroso, ganhei muita reguada. Menino não podia conversar com menina.

Com treze anos eu lembro muito bem que na época da Guerra queriam expulsar a colônia de japoneses de Registro. Durante esse período faltava querosene, sal, açúcar. Havia distribuição desses produtos uma vez por mês. A gente tinha que entrar na fila para receber.

Papai criou galinha até morrer quando eu tinha 25 anos. Casei nesse ano e depois comecei a plantar chá. Em 1960 começou todo mundo plantar chá. Ai montei uma fábrica de esteira e chinelinho.

Ave bonita quando morre deixa pena, onça bonita deixa o couro, e gente? Gente deixa o nome

Publicado em 19 de fevereiro de 2011
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Yoneco Seimaru
Nasceu em Registro em 23 de outubro de 1933. Comerciante de pastéis, aposentada.

Meu pai saiu do Japão, porque a província onde ele morava era bem pequena. Ele trabalhava com pesca. Ele queria vida melhor, foi para o Peru, Lima. Ele não sabia que lá não chovia. Ele plantava e não dava. O sonho dele era ganhar dinheiro, como não deu certo ele procurou outro país. Foi para a Bolívia, trabalhou na construção da Estrada de Ferro, mas tinha problema de droga. Aí ele procurou o Chile, lá deu certo com a pescaria, mas não tinha quem comprasse.

Aí inventaram de vir para o Brasil. Vieram a pé, tinha carabina, facão e rede para dormir. A única coisa que ele tinha medo a noite era de cobra, índio e onça. Assim conseguiu chegar em Belém do Pará. Lá tinha um engenheiro japonês e ele começou a trabalhar com picadão. Aí foi para Manaus trabalhar com pimenta do reino e depois foi trabalhar com borracha. Daí ele pegou doença e quase morreu. Aí ele desceu para São Paulo. Trabalhou na Sorocabana, depois veio para Registro na colônia japonesa. Demorou quinze anos para chegar aqui. E a minha mãe esperando no Japão. Ele não tinha mais contato com ela quase. Ele voltou lá para buscá-la. Os filhos não aceitaram e nem a minha mãe. Mas depois todos aceitaram. Aí aconteceu a Guerra Mundial e eles nunca mais voltaram para lá.

Lembro da Guerra. Os soldados entravam nas casas e nos sítios aqui em Registro para achar livros e algumas cartas do Japão. Meus pais quando escutavam barulhos de cavalo, corriam para a mata. Só deixavam eu e minha irmã. Eles perguntavam: “Cadê papai? “ A gente respondia: “Papai não está”. Eu tremia que nem louca. Procuravam coisas dentro de casa e não achavam. Aí iam embora.

Eu pedi muito para meu pai para estudar. Meu pai nunca deixou, ele achava que não precisava. Depois que acabou a guerra ficou mais calmo. Criaram-se as associações. Aí a gente começou a conhecer os jovens.

Quando chegava a época de casar, os pais falavam: “Fulana de tal é boa”. Aí arrumava um padrinho e ele que falava com o pai da noiva sobre o fulano. Era tudo combinado dos dois lados. Eu queria estudar não queria casar. Meu pai falou: “As meninas não podem estudar, tem que arrumar família”. Mesmo depois que tive filhos pensei em estudar. Depois de sessenta e oito anos fui aprender japonês. Depois fiz um monte de coisas, como: ikebana e dança japonesa.

Meu marido mandava muitos jovens para o Japão e quando terminava de fazer a papelada ele falava: “Vocês não podem esquecer três frases: “Ave bonita quando morre deixa pena, onça bonita deixa o couro e gente? Gente deixa o nome”.

Meu sonho é viajar. Já viajei o Brasil inteiro. Adoro. Eu penso em ir para a Itália. Eu acho que vou conseguir.

Camilo Aparecido de Almeida, Blogueiro

Publicado em 16 de fevereiro de 2011
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A cultura japonesa influenciou bastante o Vale do Ribeira. A festa que tem em Registro, que é o Tooro Nagashi, começou na verdade aqui em Sete Barras, por causa de um budista que visitou a região.

Camilo Aparecido de Almeida também é blogueiro e já contou a lenda da serpente com asas.

Marcelo Plácido de Oliveira Marques