Árvore de dinheiro no Brasil: o café!
Rubens Takeshi Shimizu
Nasceu em Registro em 05/11/1943. É agricultor.
Meus pais vieram do Japão. Meu pai veio com seis anos de idade e minha mãe com três. Meu avô veio direto pra Registro. Na época, Registro ainda precisava ser desbravado. Eles vieram com uma área comprada, mas sem saber onde ficava essa área. Meu avô veio em 1927, mais ou menos, e a colonização em Registro tinha começado em 1913. Eles ficaram no bairro mais distante do município de Registro.
Tinha uma companhia de colonização chamada KKKK, que havia feito o mapeamento do local que havia sido acertado com o governo brasileiro. Meu avô comprou dez alqueires ainda no Japão e, como a terra era dele, ele sempre disse que aqui viveria e seria enterrado, e assim aconteceu.
No Japão a vida era muito difícil, não havia alimentos…Sem contar a propaganda do Brasil que chegava ao Japão: haveria até árvores que davam dinheiro, que era o café.
Na época havia muitas dificuldades, a mata virgem, doenças como malária… Eles montaram uma casinha bem improvisada, bem rudimentar mesmo. Eu não tive muito contato com essa história, mas meu avô chegou a perder a mulher e buscar uma nova esposa lá no Japão.
Na época em que eu nasci não havia hospital, somente uma parteira chamada senhora Sumie e andava pela cidade fazendo os partos. Eu nasci no sítio.
Na primeira escola onde estudei, em Registro, a gente sempre levava “reguada” da diretora por chegar atrasado. Mas no dia seguinte chegava no horário! Andava quatro quilômetros pra chegar lá. Os professores não faltavam, era uma escola bem estruturada.
Voltei pra Registro, fiz o ginasial, mas naquela época meu pai estava precisando de ajuda na fábrica de chá, então fui ajudá-lo. Depois fiquei parado dois anos, ajudando meu pai a montar um sítio em Pariqueraçu.
Meu pai então me mandou pra fazer um estágio em agricultura nos Estados Unidos durante um ano, mas eu preferi fazer um curso agrícola aqui. Ele me mandou então de avião até Belo Horizonte e de lá para Viçosa. Demorava quatro horas! Não tinha mais ônibus, tive que ir de trem. Fiz dois meses de cursinho pra fazer vestibular. Achei que estava perdido, tinha muitos alunos que tinham acabado de sair da escola, e eu estava há dois anos parado. Na hora do resultado, entrei em 39º lugar, de 40 vagas. Era um curso técnico. Fiz o vestibular e entrei no superior e fiquei mais três anos lá, no total foram sete anos.
O chá era o seguinte: meu avô havia fundado a Sociedade Chatopi, na mesma época em que começou a funcionar em Registro a Cooperativa de Cotia, então a Chatopi passou pra Cotia. A Cooperativa concentrou em algumas fábricas, e uma delas era na casa do meu avô, então era pra onde levavam a produção da Chatopi. Eu trabalhei mais na fábrica do que na produção.
O processo de fabricação do chá é assim: o chá é colhido, o broto tem que ser bom, o chá é pré-murchado, moído e depois fermentado. E o ponto de fermentação tem que estar certinho, se não não fica bom.
A Cooperativa então montou uma fábrica central.As dificuldades na produção de chá aqui na região vêm da década de 70, na época das leis trabalhistas. O pessoal que trabalhava de chá não ganhava salário, era por produção. Isso pegou muitos produtores despreparados, não conseguiam nem registrar nem pagar os funcionários.
Quando eu voltei da faculdade trabalhei dois anos com educação, e depois mais quatro ou cinco anos na Secretaria de Planejamento, no projeto Centro Estadual de Desenvolvimento agrícola do Vale do Ribeira. Era um recurso japonês que vinha para fazer aqui uma área toda cultivável. Mas mandaram um equipamento muito pesado, e até refazer o projeto, corrigir e mandar pro Ministério, mandar para o Japão, sem informática nessa época…aí quando voltava pro Brasil o Ministro ou o Secretário já era outro. Aí complicava muito.
Depois fui trabalhar novamente no sitio, ainda produzindo chá. Entrou novamente em decadência o chá, então plantei mexerica, plantas ornamentais…minha missão era ajudar meus irmãos e alguns sobrinhos, com o resultado da propriedade, depois do falecimento do meu pai. Minha vontade era vendê-lo depois da formatura do meu último sobrinho, mas meus filhos não deixaram. Eles então percorreram e descobriram que ainda havia muito mercado para plantas ornamentais.
Nós trabalhamos na Associação para trazer os jovens e manter as tradições japonesas, não precisa nem ser descendente de japoneses, é só querer. Tem cursos de origami, taiko (que é o bumbo japonês).
No Sindicato Rural temos capacitação profissional e eventos oferecidos para o povo rural.
Estamos tentando ensinar para o meu neto as canções japonesas, como segurar o hashi… pra criançada em geral na comunidade a gente ta tentando fazer.Meus antepassados, meus avós, eles tinham o costume de fazer a cerimônia do chá. Eu não sabia exatamente para quê, mas a gente vinha voluntariamente fazer, pendurar as lanternas na rua. Hoje em dia não tem mais, chama-se Expo Vale. Nós temos que preservar essas coisas boas que acontecem no município. Agora temos também a criação do nosso Museu, que é tombado pelo Conselho Estadual e ano passado pelo IPHAN, na esfera federal. Nós conseguimos tombar ainda mais nove conjuntos aqui da região. Nós vamos tentar restaurar tudo, trabalhar, pra tentar tornar uma atração turística.
Esse é meu sonho: transformar Registro, aproveitando seus títulos de Capital de Vale do Ribeira, marco da imigração japonesa, terra do chá, em atração turística.O meu sonho mesmo era formar todos os meus irmãos e meus sobrinhos, agora que já consegui quero ajudar mais a comunidade.
#chá, #fábrica de chá, #IPHAN, #japão, #kkkk, #origami, #parteira, #Sociedade Chatopi






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