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Lauriano dos Santos

Publicado em 14 de março de 2011
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Aos 8 anos eu brigava no caminho da escola pelo meu candidato a prefeito. Eu entrei na política para combater a corrupção. Fui eleito vereador, fui reeleito, fui nomeado Diretor Regional da Secretaria do Interior no Governo Montoro…

No Icapara falar a casa é aficuada é igual falar que a casa é limpa

Publicado em 26 de fevereiro de 2011
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Paulo Fortes Filho
Nasceu em Iguape, em 19 de maio de 1932. Foi vereador. Professor aposentado.

Os Fortes vieram de Portugal para cá me 1660, eram três irmãos, um foi para Recife, outro para Porto Alegre e outro para Iguape.

A vida de criança de antigamente era mais comedida, tinha horário para chegar em casa. Era uma vida calma, alegre e de certa forma, gostosa. Tinha mais respeito pelos mais velhos. Eu não sei se eu era mais bonito ou mais feio, mas minha avó me dava um tratamento especial, o melhor pedaço do peixe, a melhor parte do frango.

A gente estudava aqui até a quarta série. Depois fui para Araraquara, preparatório para admissão ao ginásio. Depois fui fazer ginásio em Santos, no colégio Canadá. Eu tinha quatorze anos. Depois mudei de ares fui fazer normal em Sorocaba. A minha vontade era ser advogado igual ao meu avô, mas não deu, família pobre.

Me formei e vim dar aula em Iguape. Conheço todas as escolas da região. Voltei e comecei a dar aula no Vaz Caminha, no colégio que estudei. Depois dei aula em Registro. Depois fui para o Porto da Ribeira. Depois fui fazer pedagogia em Itapetininga.

Nós tínhamos uma professora de sociologia, muito rigorosa. A gente quase não tinha tempo de estudar. Resolvemos dar um agradinho para a professora de vez em quando. Um dia chegamos em Itapetininga e um colega comprou lá a pedra de Bom Jesus. É a pedra lavado do Bom Jesus. Até hoje a mulher guarda essa pedra. Camus colocou no livro dele essa lenda: é a pedra que cresce.

O Icapara me deu elementos para escrever o livro que escrevi sobre caiçaras. Fiquei curisoso para saber o significado de várias palavras. Tinha um vocabulário todo próprio. Virou o tema da minha tese.

O falar caiçara é um falar diferente. O caiçara é o morador do sul do Rio de Janeiro ao litoral do norte do Paraná. No Icapara falar, a casa é aficuada é igual a falar que a casa é limpa.

O caiçara não é agressivo, é irônico. O sorriso é a arma dele. O sorriso faz com que as pessoas entendam aquela maneira de se comunicar. O fato da gente ser caiçara e a curiosidade que me levaram a estudar a sua cultura. O caiçara pesca pouco porque planta. E planta pouco porque pesca.

O arroz é colhido em cachos. E é escolhido no chão da sala. Os moços e as moças dançam em cima do arroz. Quando amanhece o arroz está todo solto. É o Jongo estlizado. Tem várias músicas que animam a noite toda. Os moços tomam pinga e as moças tomam vinho. Depois o arroz é ensacado. O Camus fala dessa dança do arroz no Clube XV.

Em 1920 tinha uma agremiação que chamava As violetas. Era um clube organizado pelas mulheres. Existiam vários outros clubes. Hoje clube já não existe mais, naquele sentido de organizar as pessoas.

Contar a minha história me remoça!

A minha casa era uma casa de festa

Publicado em 22 de fevereiro de 2011
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Nilton José Hirota da Silva
Nasceu em 17 de Março de 1958 em Pariquera Açu. Professor e supervisor de ensino.

Eu tenho duas origens, sou mestiço. O meu avó por parte do pai é português da Ilha da Madeira, e da mãe, japonês. Eu tive influência das duas famílias. Minha família japonesa era menos numerosa que a portuguesa. Não sei porque eles vieram para o Brasil, vieram para morar em Iguape e fixaram residência ali mesmo. Ele foi dos primeiros açougueiros na região.

Meu avô veio para São Paulo, e acabou sendo encaminhado para cá. Ele teve a missão de separar as terras e a área territorial de Registro, trabalhava na colonização, no KKKK. Ele não se adaptou a São Paulo e quando apareceu essa oportunidade, ele aceitou. Ele também fazia tradução, regularizava os registros de imigração. E ainda, ele foi o primeiro japonês a casar-se com uma brasileira aqui em Registro.

Meu tio foi um grande playboy, faleceu muito cedo, infelizmente, num acidente. Mas ele tinha um jeep, era galã conquistador.

Quando as pessoas se interessavam em vir para o Brasil, recebiam uma cota de terras. Então quem administrava essa distribuição era meu avô. Ele analisava os contratos e fazia a divisão. Já chegamos a ter 80% da população formada por japoneses aqui.

Meu avô morava perto da Praça dos Expedicionários, depois moramos onde hoje é o banco na avenida principal, e depois começamos a nos afastar.

Meus pais se conheceram em tempos de escola, não sei muito bem como, minha mãe era mestiça mas o preconceito já era mais tranquilo. Mas quando eu era mais novo, em 74, 75, namorei uma japonesa, a família dela não aceitava muito a relação. Tinha que ser meio escondido mesmo, pular a janela. E era emocionante por isso também. Teve até tiro pro alto, pra me assustar.

A relação com o meu avó era muito especial, meu avô era muito conhecido aqui. Chamava-se Heiro Costa e ele era um companheiro de quase todos os dias, aprendi a jogar xadrez com ele. Ganhei um tabuleiro de um tio meu, e quando acabava minha aula às 11:30, chegava na casa dele e ele estava lá me esperando. Meu avô realmente foi muito importante na minha formação. Ele que me incentivou a entrar para a política, por exemplo.

Aqui era tudo diferente, os parentes moravam todos na mesma avenida, mas hoje em dia é só comércio. Na minha memória já fugiu um pouco como era a cidade, brincávamos de pegar amora silvestre, jogar futebol na rua com colegas de escola ou de rua mesmo.

Cheguei a ser vice campeão do Estado de xadrez, aos 13 anos. Até os 16 anos joguei muito xadrez. Hoje sou professor de xadrez, ensino muito a molecada.

Nos seis anos que morei em São Paulo, se eu fiquei três fins de semana lá foi muito. Vinha todo o fim de semana para cá. Fui pra São Paulo para estudar.

Tinha muita festa aqui. A minha casa era uma casa de festa. Meus pais foram muito festeiros, fazíamos baile com luz negra e cuba libre. Depois passei a ser DJ, fiz isso cinco, seis anos. Eu e meu irmão trouxemos os primeiros shows da região, trouxemos o Ira, Roupa Nova, que deu 100% de lucro. Foi muito bom enquanto durou. Depois do Roupa Nova a gente se separou e eu fiz o Paralamas só com a minha esposa.

Teve época que chegamos a fazer três bailes por dia. Três equipes de som em três lugares diferentes. Eu ficava no Vale do Chá.

Depois comecei a ser professor e gostei. Hoje sou professor de professor. O Chico Mané, que tem um cursinho para concurso aqui do lado, me convidou para ajudar. Eu comecei e foi aumentando a turma.

Eu tive também experiência de cinco anos de locutor de rádio. Depois me elegi vereador, já era conhecido na cidade. Fui vereador quatro vezes, agora sou suplente de vereador. O que me motiva é ajudar a cidade, passei toda a minha vida aqui.

Os diários do meu avô são um referência aqui na cidade. Nesse centenário da imigração japonesa de Registro, pretendemos traduzir a obra completa. É um diário muito revelador da nossa história. Ele era muito minucioso e observador. Falava até de um terremoto que teve aqui na região, da temperatura. Ele participou da divisão de terras aqui da região. Ele era uma espécie de jornalista.

Cheguei pensando em ficar apenas seis meses

Publicado em 14 de fevereiro de 2011
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José Milton Galindo

Nasceu em Indiana-SP, 15/ 05/1952. Mudou-se para Eldorado em 1982. É professor de História, Geografiam Sociologia e Filosofia.

Sou conhecido por Galindo porque em cidade pequena a gente sempre tem um nome pra se diferenciar do outro, se não confunde. E esse nome vem da Galícia, porque meus ascendentes eram espanhóis.

Na infância, lá em Indiana, a gente fabricava os nossos próprios brinquedos, porque não existiam essas coisas prontas de hoje. Acho que isso era uma atividade muito lúdica, era importante. Outra coisa é que como não tinha merenda no colégio, eu acordava cedo e arrumava pra levar a comida pro colégio.

Nesse colégio eu fiquei até que me mudei para Adamantina, e lá fiquei até quase me formar na faculdade. Quando eu comecei a fazer faculdade eu era bóia fria. Acho que eu era o único bóia fria que fazia faculdade. Na época eu tinha ganhado uma bolsa porque eu tinha passado em primeiro lugar no vestibular, e só por isso eu conseguia estudar. O trabalho no campo era quase escravo, muito depois eu fui trabalhar como cobrador de ônibus, depois como sapateiro, em seguida seleiro e no meu último emprego, lá em Adamantina, eu era carteiro. E tinha um professor que me cobrava “Você é um dos melhores alunos. Lamber selo até vaca lambe, vá tentar outra coisa”. Aí resolvi vir para Eldorado. Em 28 de fevereiro de 1982 eu vim para cá tentar outra vida.

Eu já tinha passado por Eldorado em 72, numa excursão pra Caverna do Diabo. Na época eu achei um horror, a cidade era um buraco. Quando escolhi morar aqui, ninguém queria vir pro Vale do Ribeira porque era muito pobre, muito ruim, e acabava que não tinha professor. As pessoas vaiavam quando alguém escolhia o Vale do Ribeira. Cheguei pensando em ficar apenas seis meses. Quando cheguei, a cidade não tinha estrutura nenhuma. Pra telefonar, tinha que ir à telefonista, dar o telefone, esperar até que a funcionária avisasse pra atender na cabine tal. Pra chegar até o colégio, era uma aventura pelas estradas de barro. No começo eu sofri muito. A região ainda não está como devia, mas melhorou.

Quando eu cheguei, só tinha um médico. Ele e eu éramos solteiros e nós saíamos juntos. Um dia fomos para o bairro Abobral e ele me avisou que era pra tomar cuidado porque no bairro as pessoas não gostavam de pessoas de fora. Chegando na quermesse de lá, ele disse que apostava que eu ia arrumar confusão. Eu logo tentei conversar com um senhor, que não me deu amizade. E chegou uma morena linda e pra quebrar o gelo eu perguntei pro senhor quem era a morena linda. Ele puxou uma garrafa e disse “O que você está falando da minha filha?”. Logo me cercaram pra prestar contas. “Fala na frente dos amigos o que você falou da minha filha”. E o meu amigo cobrando a cerveja. Eu disse “Eu gostei da moça bonita e queria namorar com ela.” O pai pediu pra então eu falar com ela. Um ano depois estávamos casados! E acabou que eu ia ficar 6 meses, mas me apaixonei e fiquei.

Geladinho

Publicado em 13 de fevereiro de 2011
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Robert Ricardo Pinto
Nasceu em Eldorado em 27/04/1981. É assistente educacional.

Eu sempre morei em Eldorado, mas como aqui não tinha como fazer cesariana, minha mãe foi me ter em Pariguera-Açú, que é aqui em São Paulo mesmo, no caminho pra Ilha Comprida. E na infância eu vivi sempre com meus pais, mas passava a maior parte do tempo na casa da minha avó. Brincadeiras, esportes, jogos de rua era com os primos nessa casa da avó, que também é aqui em Eldorado.

Era a minha avó que fazia geladinho pra combater esse calor de Eldorado. Fazia outras comidas deliciosas também. E desde essa época eu sempre gostei de esporte. Então nós fazíamos da rua quadra de vôlei, armando um fio na rua. E ficávamos bravos quando os carros passavam atrapalhando.

Já o meu avô era bem conhecido na região. Era conhecido como Pedro B. É vulgar, mas vou falar: ele gostava muito das mulheres, e esse B. estava relacionado com isso! Mas a minha avó não, foi sempre muito fiel.

Por outro lado, na casa dos meus pais, às vezes faltava algumas coisas. Meu pai era caminhoneiro e nem sempre tinha pra dar tudo o que precisávamos. Mas teve um lado bom porque aprendemos a ter muita perseverança. Até para as brincadeiras. Por exemplo: quando a gente queria brincar de perna de pau, conseguíamos arranjar uma madeira na serralheria e fazíamos aquelas pernas de pau. Então aprendemos muito com essas dificuldades.

Eu só fui romper mais com esse dia a dia todo quando eu fui buscar a minha formação em Sorocaba e São Bernardo. Eu me formei em Educação Física, que era algo que eu gostava desde pequeno. E eu voltei pra cá quando meu pai estava em condições financeiras ruins e era difícil me ajudar a sustentar fora. Aos poucos, comecei a trabalhar como professor de musculação, que é o que eu estou fazendo ainda hoje.

Histórias de Saci Pererê

Publicado em 12 de fevereiro de 2011
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Noel Castelo da Costa
Nasceu em Eldorado, 10/03/1969. É professor e vereador.

Eu nasci em Eldorado e a minha data de aniversário é a mesma da cidade! Meus pais são daqui. O meu pai foi descendente de escravos e, mesmo liberto, ainda trabalhava na fazenda. A vida inteira dos meus pais eles trabalharam com agricultura de subsistência. Faziam também artesanato com cipó e bambu.

Os meus irmãos mais velhos nasceram com parteiras, mas eu já nasci no hospital. Só que a casa da minha infância era ainda de pau a pique. Nessas casas de pau a pique morávamos 9 irmãos. A gente morava numa chamada Casa Grande, onde os tios moravam juntos também. Muitas famílias moravam lá. Nesse sítio também a gente criava porcos e, numa data festiva, matava e dividia em todo mundo. A banha, sem sal, era guardava numa lata, e durava o ano inteiro. E como era permitido na época, a gente comia carne de caça e meus pais também mexia com palmito juçara, tirado da mata. Essa época traz uma saudade!

Mas não tinha condições. Eu tive muita dificuldade pra estudar. Acordava 3 da manhã, andava muito. Hoje mesmo, porque sou vereador, tenho esse plano das crianças não passarem pelo o que eu passei. Na minha casa de infância todo mundo dormia no chão, com pedaços de cobertor. Todos dormindo juntos. Na época de inverno, que não tinha cobertor, tinha a cultura do fogo no chão, que acendia na cozinha de chão batido. Meu pai ficava contando histórias e todo mundo dormia com o pé pro fogo pra se aquecer.

Eu lembro de muitas das histórias que meu pai contava. Tento contar pros meus filhos, mas é difícil reunir a família. Meu pai me contava até que já teve uma briga com o Saci Pererê! Tinha muita história que a gente ouvia. Contava história de assombração que montava na garupa do cavalo fazendo mais peso, outras histórias de caça. Eu poderia ficar o dia inteiro contando. Lembro dessas histórias tanto que parece que estou ainda vendo meu pai contando…

Festa da Nossa Senhora da Guia

Publicado em 12 de fevereiro de 2011
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Eugênia Muniz de Freitas
Nasceu em Eldorado, 31/10/1930. É professora aposentada e trabalha na pastoral da saúde.

Meu pai nasceu em Sete Barras e minha mãe nasceu aqui em Eldorado mesmo. Eu cresci e casei na mesma casa. Era uma casa geminada, numa ladeira. Morávamos em onze irmãos e brincávamos muito, na rua mesmo. A rua era calma, só havia uma pessoa que tinha carro. Pra chegar em São Paulo, demorava um dia inteirinho!

Meu pai tinha loja de secos e molhados e também fazia beneficiamento de goiaba. Ele vendia para a Cica. Eu ajudava às vezes ele na loja, ficava pra ele no balcão.

E essa foi a minha infância até ter que me mudar pra Santos pra continuar os estudos. Mas assim que me formei no magistério, voltei pra cá. Já fui dar aula pra ajudar a família porque meu pai estava com tuberculose e eu precisava ajudar. Na família já tinha uma tradição de dar aula. Meu bisavô foi o primeiro professor dessa cidade daqui de Eldorado.

Aí fiquei na cidade. Daqui gosto da festa da Nossa Senhora da Guia. Aqui na praça principal, fica tudo cheia de barraca nessa época. Vem barraca até de São Paulo. A Nossa Senhora da Guia é a nossa padroeira porque essa imagem foi trazida de Portugal pelos fundadores da cidade.

O momento mais marcante que eu passei aqui foi quando o meu marido faleceu. Ele tinha fibrose pulmonar e faleceu no meu quarto, conversando comigo. Hoje mesmo eu faço parte da Pastoral da Saúde. Eu vou visitar os doentes, falar com eles. Esse é um trabalho que faço agora que estou aposentada na minha profissão. E acho que minha vida foi muito maravilhosa. Se eu pudesse voltar, fazia tudo de novo!