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A tia de José e a moça de minissaia

Publicado em 20 de abril de 2011
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José Arimatéia Barbosa, 65 anos

Eu havia mudado há dias do sítio onde morava para a cidade, quando vi pela primeira vez uma moça de minissaia em Eldorado. Ela atravessava a Praça Nossa Senhora da Guia seguida por um bando de moleques barulhentos.
Eu estava com uma tia que tinha especial predileção por uma prima minha ainda adolescente. Virando-se para ela, minha tia falou em tom sério: “Eu preferia você no caixão, a vê-la com uma roupa igual a essa”.

Silvio Rodrigues, Artesão

Publicado em 29 de março de 2011
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Despraiada hoje em dia é uma terra muito bonita, muito linda. Eu tenho orgulho de dizer que sou de lá. Nós temos um sítio lá, é nosso e não é. A gente não pensa em vender, o governo nem quer pagar. É muito sofrido lá, porque hoje em dia não term serviço.

Silvio Rodrigues nos conta um pouco das mudanças em sua vida com a transformação da região em santuário ecológico. trabalho de artesão.

Meu sonho é ser prefeito de Iguape

Publicado em 22 de março de 2011
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Elias Teixeira de Aguiar
Nasceu em Iguape de 08/06/1963. É vereador.

Meus pais e meus avôs nasceram em Iguape. A descendência da minha família é portuguesa, da parte do meu pai. Ele trabalhou com comércio de secos e molhados por trinta anos. Depois tinha um trabalho paralelo, comprava banana na região e vendia no Ceasa.

A gente morava no sítio e andava de lancha para chegar aqui em Iguape. Era uma semana para chegar em São Paulo. Era uma dificuldade. Televisão quando fui ver já tinha quatorze anos.

Meu avô tinha roça, lavoura, plantava de tudo. Na época eram umas quarenta pessoas no sítio.

Minha casa era de tábua e a cozinha de chão batido.

Eu me divertia com futebol, bolinha de gude, nadava bastante. Eu comecei a trabalhar com oito anos de idade, ajudava meu avô na roça. Minha infância, minha vida mesmo, foi mais trabalho.

A professora Zue me marcou muito. Ela era muito bacana, mora até hoje em Iguape.

A gente nunca passou fome, mas a nossa veste era bastante precária.

Traíra, acará, mandiá, saiguiru, a gente pescava muito naquela época. Pescava com linha. Ia na canoa do meu avô. Hoje não tem mais tanto peixe.

Em vim para Iguape com 15, 16 anos. Meu primeiro emprego foi trabalhar de frentista num posto de gasolina, lavador de autos. Depois passei para pintura de auto.

Houve uma enchente grande aqui na região, a maior que teve , que deixou a cidade toda parada. Aí fui para São Paulo, fiquei trabalhando lá. Fui trabalhar de assistente de pedreiro. Depois fui para uma confecção, depois uma metalúrgica. Aí voltei para Iguape. Minha noiva era daqui de Iguape.

Resolvi casar. Fui plantar legumes. Trabalhei três anos de motorista de ônibus. Fui candidato a vereador, na época o candidato a prefeito que me convidou. Eu não tinha conhecimento de política nenhum. Nem gostava de política, em 88 não fui eleito, fui segundo suplente. Fui bem votado porque eu trabalhava no ônibus conhecia bastante gente, tinha amizade no bairro. Aí o Ariovaldo, prefeito, me chamou para ser seu assessor. Aí fui candidato a vereador novamente. Em 92 eu fui o candidato mais votado de Iguape. Aí eu aprendi o que era política. Peguei química na política. Estou até hoje aí.

A população de Iguape é meio distante. Eles não acompanham a ação da Câmara. O executivo tem que dar um pouco mais para o município.

Iguape sempre foi uma cidade muita festeira. Eu ia muito para discoteque. Ia pra baile. Na época tinha cinema. Eu não fui muito de curtir cinema. Assisti alguns filmes do Mazaroppi, que gosto de assitir até hoje.

Eu trabalho diretamente com o povo na rua. É um estilo meu.

Na cidade eu freqüento mais barzinho. Vou num churrasco, não sou tanto de ir na Praça.

As festas da cidade são muito boas. A festa de agosto, que são uma das maiores do Brasil. Iguape é uma cidade que tem festa direto. Tem a festa do robalo, da tainha… Nós temos a pesca da manjuba, que é a nossa renda maior.

Eu já fui pescador um ano. Pesquei manjuba. Hoje não pesco mais.

Estou acostumado com mistérios

Publicado em 16 de março de 2011
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Benedito de Oliveira
Nasceu em 15 de junho de 1945.

Minha família chegou em 1554 com a família Nunes, por parte de pai, por parte de mãe é Santos. Eu morei no bairro Raposo. Eu andava seis kilometros para ir para a escola. Eu ia a pé.

A minha casa era simples. Não tinha banheiro. Era no rio que pegava água. Nasci de parteira, minha avó, que nasceu em 1857. Era uma época difícil, mas tinha comida. Tomávamos banho no rio ou na bacia com água fria. Sabão era de pedra. Não tinha fogão a gás.

Eu não cheguei a trabalhar no sítio, mas meu irmão sim. Minha mãe coitada, sempre ia na roça com o meu pai. Até na véspera de ter filho.

Aonde nós moramos hoje era tudo cerca, não existia muro.

Uma noite correndo para lá e para cá eu, o Ataíde e o Ademir apareceu um neguinho que olhou pra mim deu risada e sumiu na hora. Olhei olhei sumiu na minha frente. Eu não me assustei. Eu com cinco anos no tempo do sítio. Chegou meu padrinho e outro amigo e olhei e vi uma pessoa com eles, quando chegou perto eu disse: “ E o outro que veio no meio”. O padrinho disse que só tinha dois. Tô acostumado a ver coisa misteriosa. Eu não tenho medo não.

12 de julho de 1994, as duas da manhã, um domingo. Tava lendo um livro quando uma voz falou: “Paulo Nachita, morreu, morreu”. Aí eu pensei: “Estou aqui sozinho, como é que pode? “Fui até a copa tomei um café, orei. O Paulo Nachita sempre acendia a luz do bar para vender frango assado e as cinco saia para comprar pão. Nesse dia ele não acendeu a luz, depois de manhã vi na porta dele: Fechado por luto.

Eu trabalhei na construção da BR 116. Registro passou a ser capital do Vale depois disso. Terminei de estudar, quando parei com quinze anos em 1959. O Zé Pé Quebrado, arrumou serviço para mim na CCBR ficava na Jacupiranga. Tinha que levantar as quatro da manhã. Eu era boieiro levava a comida para o pessoal. Pegava água também. Isso deve-se ao presidente Juscelino. Isso fez com que Registro crescesse.

Ali na descida era o cine Santo Antonio passava na matinê filmes em capítulos. Chegou a passar uma vez em sete sessões. Eu ia no cinema com os amigos. Lembro do Durango Kid.

Donizete de Oliveira

Publicado em 11 de março de 2011
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Os primeiros dias quando eu comecei a trabalhar nos escritório foi uma prisão. Sou acostumado com sítio, roçar, carregar banana no ombro. Então passar a ficar dentro de um escritório, só de vez em quando ir para a rua, foi uma adaptação difícil.

Valéria Guimarães

Publicado em 11 de março de 2011
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A gente era acostumada com São Paulo, agitação, trânsito. Tudo o que você vai fazer é correndo, e aqui não, aqui é tudo mais devagar. Eu era tão acostumada com o ritmo de lá que tinha aflição de ir na padaria comprar um pão, mas quando acostumei…

Valéria nos conta um pouco da sua adaptação à Eldorado e também um pouco como começou o seu próprio negócio.

O Rio Ribeira hoje não tem nem a metade de água que tinha

Publicado em 21 de fevereiro de 2011
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Antonio Rodrigues de Souza
Nasceu em Iguape em 07/09/1940. Chegou em Registro em 1979. Funcionário público, aposentado.

Minha família é de origem portuguesa e espanhola. Tive três irmãos que faleceram, vivo só resta eu e minha irmã. Eu morava no sítio, não era uma terra muito boa. Criava galinha, porco e plantava. Comecei a trabalhar com meu pai com a idade de 7 anos.

Um tempo freqüentei a Escola Municipal, depois ela fechou. Eu lembro de uma professora, a Dona Maria Aranha, a filha dela também estudava lá. Ela era brava e mansa. Naquela época a professora era uma segunda mãe da gente. Quando chegava a hora do recreio você oferecia voluntariamente para encher as vasilhas da professora. Para a professora tomar banho e fazer comida. A professora morava num puxadinho do lado da escola. A escola ficava uns 8 Kms de casa, eu ia à pé, demorava uma hora e meia para chegar. Quando eu chegava em casa eu ia comer alguma coisa e o pai já chamava a gente para trabalhar na roça.

Matraca tem duas argolas e é feita de madeira. A gente usava para plantar arroz, feijão e milho. Esta região do Vale do Ribeira foi o maior produtor de arroz. Foi até representante em Milão. Ali onde é o KKK ficava a máquina de beneficiar o arroz. O vapor Bento Martins fazia o transporte do arroz.

Eu saí do Município de Iguape e fui morar no sítio da família da minha esposa, mas era muito pequeno lá e morava muita gente. Fui desgostando daquilo e eu disse para minha mulher: Vou embora para a cidade. Daí viemos para Registro.

Conheci minha mulher no vapor. Minha esposa já tinha me visto com outra moça numa festa em Itapetininga. Aí eu vim para Registro e minha esposa perguntou: “Você já casou?”. Eu disse: “Não, aquele namorinho é bobagem”. E ela: “Olha me fale a verdade”. Daí começamos a namorar.

Fiz concurso para prefeitura e passei. Era encarregado de pessoal. Depois tinha lá a parte que era do Ministério do Trabalho e me chamaram para trabalhar no lugar de uma moça do que ficou doente. Mas eu não sabia nada daquilo, mas o chefe gostou de mim e não me deixaram mais sair. Fui substituir por oito meses fiquei dezoito anos. Aprendi tudo.

Registro agora é a capital do Vale do Ribeira, antes era a capital do Chá.

Eu gostava de ir na beira rio. Uma enchente é bonita, o problema é que faz estrago. O rio Ribeira hoje não tem nem a metade de água que tinha. Quando o vapor grande portava, punha uma prancha grande para a gente descer. Diminuiu muito o volume de água.

Aqui teve ouro. Tiravam daqui e deixavam registrado aqui o valor que ia para Portugal.

Quem trouxe o progresso aqui foi a BR 116.

Eu tenho o sonho de viver mais um pouco, ter saúde. E que meus netos tenham uma situação melhor. Eu já passei cada situação difícil.

Naquela época professor era muito rigoroso

Publicado em 20 de fevereiro de 2011
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Kazuo Ono
Nasceu em Iguape , em 06 de julho de 1928. Agricultor aposentado.

Minha família chegou em 1924 do Japão para cá. Desde moço meu pai era apaixonado pelo Brasil. Eu não sei muita coisa como foi a viagem dele para cá. Ele veio para Registro atrás de um loteamento. Ele ficou trabalhando quatro anos como colono.

Quando eu estava com cinco anos minha mãe faleceu. Lembro muito bem da sepultura da minha mãe. Sentei em cima do caixão na carroça e a vizinha me chamou a atenção. O cemitério era bem longe, região de brejo. Papai sozinho criou nós.

Em 1929 meu pai conseguiu comprar um terreno e plantou café, arroz e criou galinha. Com sete anos fui na escola primária e já ia no cafezal ajudar a colher café. Eu estudei na Escola Luis Guimarães de Almeida, tinha muito japonês estudando lá. Professor naquela época era muito rigoroso, ganhei muita reguada. Menino não podia conversar com menina.

Com treze anos eu lembro muito bem que na época da Guerra queriam expulsar a colônia de japoneses de Registro. Durante esse período faltava querosene, sal, açúcar. Havia distribuição desses produtos uma vez por mês. A gente tinha que entrar na fila para receber.

Papai criou galinha até morrer quando eu tinha 25 anos. Casei nesse ano e depois comecei a plantar chá. Em 1960 começou todo mundo plantar chá. Ai montei uma fábrica de esteira e chinelinho.

Caverna do Diabo

Publicado em 14 de fevereiro de 2011
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Jaime Alves
Nasceu em Eldorado, 06/06/1943. É aposentado/ guia turístico.

Meu pai era de Iguape e praticamente se criou aqui; e minha mãe, de Itapiuna, cidade vizinha daqui. Os meus pais se conheceram em Eldorado, por causa da Igreja Batista. Tiveram 4 filhos, 3 meninos e 1 menina, sendo eu o mais velho.

Na época a gente sofreu muito porque a minha mãe pegou uma tuberculose. Então tivemos que levar ela pra São Paulo. Meu pai só podia visitá-la 1 vez por ano, porque não tinha condições. Ele vendeu tudo pra ir visitá-la e deixar dinheiro pra ela. Quando meu pai viu que ela não teria cura, trouxe pra casa. Ela viveu mais um ano e faleceu. Ele ficou viúvo até morrer, com 90 anos.

A infância aqui em Eldorado era assim: a gente ia pela trilha para ir para escola, caminhando. Chegando na escola a gente via o pessoal com mais condições comendo e a gente passando fome. Depois voltava os 6 quilômetros, com chuva e tudo, com medo do mato, e às vezes quando voltava não tinha nem pra comer. Nesse caminho até o colégio tinha muitas coisas que a gente via.

Uma vez eu vi um vulto que parecia um boi. Quando cheguei perto já não era um boi, era um burro. Quando cheguei pertinho, esse negócio saiu da estrada e já não era um burro, era um porco. E não me deixava passar. Isso eu não esqueço, além de outros barulhos, outras coisas estranhas que aconteciam. Só não sei dizer o que era.

No mesmo sítio que eu morava de pequeno, casei, morei lá. É um sítio grande. Em 97, quando deu aquela enchente, inundou tudo até ali perto de casa. Eu estava voltando pra casa e fui nadando, os bichos me mordendo, e eu fui por entre o bananal para encontrar o meu pai. Cheguei lá e o meu pai estava tranqüilo, sentado. A água estava pertinho, mas não tinha chegado até a casa. Só que perdi todo o bananal que eu estava plantando.

Trabalhei cuidando do parque da Caverna do Diabo. Eu fui fazendo contato com os turistas que desciam dos ônibus e aos poucos o pessoal foi me incentivando a ser guia turístico das cavernas da região. Eu pedi autorização e me deixaram. Virei guia. Da Caverna do Diabo eu conheci tudo, percorri tudo, de ponta a ponta.

Uma vez um pessoal entrou lá e passou do limite permitido aos turistas. Foi passando o tempo e eles não voltavam. Achavam que eles estavam perdidos no mato, mas eu achava que eles estavam na caverna. Passados 3 dias, eu consegui uma equipe para ir buscá-los. Achamos as pessoas, estava com as pernas machucadas de nadar entre as pedras. Ajudamos as pessoas a saírem, e já tinha bombeiros para resgatá-los. Eu trabalhei 26 anos lá e essa foi a maior coisa que fiz.